O que eu quero dizer é: tirando o fato de que ele viu muita coisa interessante como: a cara que o Radjabov fez quando abandonou contra Van Wely – para alegria do Sigrist; os seguranças do Krammink; o dedo de prosa que teve com o Topalov; a decepção com a vitória do Carlsen na primeira rodada – sim, os Tops também enrolam!; é difícil extrair mais alguma coisa... Mas, enfim, vamos tentar.
“Entre os dias 12 e 25 de novembro, aconteceu, em Dresden, (Sajonia, Alemanha) a 23ª Olimpíada de Xadrez. Participaram da competição 156 equipes de 152 nações distintas – apresentando, em sua grande maioria, os melhores jogadores de seu país. "A vitória ficou nas mãos da fortíssima equipe da Armênia. Aliás, sagraram-se bicampeões, a frente de Israel, Estados Unidos, China e da temerosa equipe da Rússia, que obteve apenas uma modesta quinta colocação", reporta Leonardo Vivaldo, diretor do Clube de Xadrez de Matão (CXM).
"A China também faz muito bonito nos tabuleiros, a exemplo dos esportes disputados em Pequim. Já faz algum tempo que a Rússia não possui mais a hegemonia enxadrística, como ocorreu durante praticamente todo o Século 20. Contudo, vale lembrar: com exceção da China (na verdade, se pensarmos bem, também não é uma exceção, muito pelo contrário), todas as dez primeiras colocadas tinham algum vínculo com a antiga União Soviética: ou são países que faziam parte dela ou seus jogadores são formados por expatriados da mãe Rússia. Curiosamente esse é o caso dos Estados Unidos, por exemplo, que conta com os seguintes 'americanos': Gata Kasmky e Alexander Onichuk. Stálin deve estar se revirando no túmulo...", comenta Leonardo.
A equipe brasileira - que terminou em uma honrosa 58ª colocação, atrás do Paraguai, mas a frente da Argentina - contou com dois Grandes Mestres: Jayme Sunye e Darcy Lima (ex-presidente da Confederação Brasileira de Xadrez - CBX); dois Mestres Internacionais: André Diamant (o mais novo da equipe, com apenas 18 anos) e Cícero Nogueira Braga - que já defendeu a equipe de xadrez de Matão na década de 90 - e por fim, o Mestre Fide - mas já MI por direito: o matonense Felipe de Cresce El Debs.
"Por si só, esse fato já seria histórico: é a primeira vez que um integrante da equipe matonense disputa o mais importante torneio de xadrez do mundo. Contudo, mais que isso, Felipe - atualmente o 14° maior Ranting do xadrez brasileiro; e que recentemente conseguiu a obtenção do Título de Mestre Internacional -, fez uma participação brilhante - para afirmar o mínimo - somando 8 pontos em 10 possíveis. Ele deixou de jogar apenas uma rodada - a primeira -, pois havia perdido o crachá que permitia acesso ao salão do torneio! O Felipe fez um Ranting performance de 2.590 pontos - além de somar mais 19 pontos de Ranting - realizando assim, não apenas uma norma de Grande Mestre, mas sim duas!", relata Leonardo.
"Acontece que o peso de uma norma, em Olimpíadas, é dobrado. Os títulos de Mestres são divididos pela Fide em três categorias: Mestre Fide, MI e GMI. Enquanto o título de Mestre Fide é conquistado apenas quando o jogador atinge uma pontuação superior a 2.300 pontos de Ranting Fide, os títulos de MI e GM são conquistados somente depois que o jogador consegue realizar no mínimo três 'normas', ou seja: jogar um número 'x' de partidas contra jogadores que já tenham o título; e conseguir 50%, ou mais de pontos contra esses jogadores. Para cada torneio que o jogador atinge essa média, é computada uma 'norma'", explica.
Leonardo lamenta a falta de três GM´s Brasileiros: Rafael Leitão, Gilberto Millos e Giovanni Vescovi. "Eles ficaram disputando os Jogos Abertos do Interior de São Paulo. Muitos enxadristas podem achar um absurdo trocar Dresden pelo Interior Paulista, mas é necessário compreender que a maioria dos enxadristas profissionais no Brasil tem como principais fontes de renda os patrocínios das Prefeituras. E os Jogos Abertos é o subsídio do patrocínio. Além disso, os jogadores podem contar com patrocínios privados, aulas particulares, premiação de eventos (ainda que, muitas vez, escassos – mas já se melhorou muito!), cachets por participação em torneios fechados (limitados), simultâneas (ocasionais), cursos e palestras", coloca.
"Contudo, a CBX agiu bem em se preocupar logo no início do ano com a formação da equipe, permitindo tempo para que os jogadores pudessem treinar, se prepararem fisicamente, técnica e psicologicamente, montando uma agenda de participação em eventos durante o ano. Em edição anterior também houve a feliz idéia de reunir a equipe olímpica com o treinador russo Mark Dvoretzky. E, claro, não podemos esquecer que a CBX cobriu todos os custos da viagem a Dresden", frisa Leonardo.
No final desse ano, El Debs ainda deve se preocupar em sanar seus compromissos acadêmicos - é estudante de Economia na Fundação Getúlio Vargas (FGV) - e voltar a tempo para comemorar seus grandes feitos com os colegas enxadristas de Matão. "Vale lembrar que ele presenteou o amigo Fernando César Frare com uma garrafa de Absinto e eu com uma garrafa de Vodka", sorri Leonardo.
"Sinceramente, não estava entendendo muito bem o que era participar de uma Olimpíada de Xadrez. Parecia mais uma viagem como outra qualquer – como ir para os Jogos Abertos - só que de avião. Mas, chegando lá, vendo todo aquele pessoal que só ouvíamos falar – mais o lugar em si – tudo muda! Foi uma experiência fantástica! Com certeza, um dos maiores prazeres enxadrísticos que já tive", resume El Debs, que nascido em São Carlos, é considerado Matonense nato pelo CXM.”
Seguindo, para não perdermos as fotos que foram enviadas pelo mestre El Debs, façamos, portanto, uma breve reconstituição dos fatos (quais serão as três fotos verdadeiras e quais são montagens?! Tentem descobrir!):
(fazendo um boquinha! Ninguém é de ferro...)
(E porque não o lazer?! Nosso mestre também é um grande pé de valsa!)
(Isso a história não contou: Felipe passou mal, lá em Dresden, com uma forte dor de dente... mas organização de primeira: prontamente foi atendido!)
(Meio indiscreta essa fotografia...)
(Comemoração depois da norma! E toma dança de novo! - não parece o Karpov com ele?!)
(Sempre responsável, Felipe comemorando com um refrigerante! - dissem até que ele vez sucesso com essa história)
(Mal conseguiu a norma Felipe já correu para o computador nos avisar! - coisa que ele fazia todo dia, aliás: conversar com a gente!)
(Felipe na volta, comemorando! E quem foi buscar ele no aeroporto?! Sim! Ele mesmo! Gabriel Salim Name!)
(Felipe no avião - seria o irmão ao lado?!)Para finalizar: abaixo duas partidas do MI Felipe El Debs, com comentários gentilmente cedidos (sem saber!) pelo MI Rodrigo Disconzi (em caso de processos, entre em contato com José Roberto de Oliveira Júnior – o Tekinho).
Danielsen, Hen (2492) - El Debs, Felipe (2447) [A07] 38th Olympiad Dresden GER (5), 17.11.2008
13...Tfe8 14.Bb2 Cf8 15.Cc4 C6d7 16.Ce3 [16.Bc3 f6 17.Td2 b5 (17...b6) ]
17...Tad8 18.Td3 f6 19.Tad1 Cdf8 20.Bc3 b6 21.T3d2 Cg5 22.h4 [Debilita um pouco a ala do rei, mas alivia a pressão do Cg5 e permite Bh3]
El Debs, F (2447) - Prusikin, M (2538) [A13]38th Olympiad Dresden GER (9), 22.11.2008
1.Cf3 [Felipe gosta de jogar posições dinâmicas e com a iniciativa, sem se importar se a ação ocorrerá somente mais tarde. A Reti e a Inglesa se encaixam bem no seu estilo.
1... Cf6 2.c4 e6 3.g3 d5 4.Bg2 [4.d4 Levaria a partida para a Abertura Catalã diretamente.
4... dxc4 5.Da4+ Cbd7 6.0–0 a6 7.Dxc4 b5 8.Dc6 [Retira a Torre da coluna A e da diagonal h1–a8. Não sei ao certo para quem isso é vantajoso. Mais jogado é 8.Dc2 Bb7 9.a4 para pressionar b5 com Db3 ou Dd3 e Ca3. 9...c5 10.axb5!? deixando o peão D indefinido se vai a d3 ou d4, permanecendo nos terrenos da Reti/Inglesa.]
8... Tb8 9.d4 Bb7 10.Dc2 c5 11.Bf4?! [Aqui notamos um aparente ganho de tempo em relação à posição da torre preta, mas isso não quer dizer muita coisa, pois c8 parece a casa natural dela. Já o Bispo em f4 costuma ali se alojar quando tem certa estabilidade
11... Tc8 [e agora Felipe tem mais problemas a resolver do que seu oponente.
12.Cbd2 [Solução "cool". Deixar pretas ganharem um peão central e seguir jogando como se nada tivesse ocorrido. Aliás, nas vezes em que enfrentei Felipe pude notar esta característica em seu jogo
12... cxd4 13.Dd3 Be7 [13...Cd5 seria um lance que me incomodaria.
14.Tac1 0–0 15.Cxd4? [Nesta fase inicial do jogo, Felipe correu certos riscos e a impressão que meus comentários podem causar é que quero mostrar que ele jogou mal. Mas não se enganem com isso, pois ali, na hora da partida, diante do tabuleiro, a quantidade de pressão que coloca-se no adversário pode contrabalançar posições não muito boas. E isso conta muito para ganhar partidas. 15.Dxd4 Cd5÷
15... Txc1 16.Txc1 Bxg2 17.Rxg2 [Esta troca pode parecer uma ofensa aos jogadores da catalã, pois troca o baluarte da diagonal. Mas é um tema posicional recorrente a troca dos bispos para tentar invadir o campo preto via c6].
17... Cc5 [Nessa posição, especificamente, pretas não deveriam sofrer nada devido ao jogo ativo no centro.
18.De3 Cd5 19.Df3 Cxf4+ 20.Dxf4 Bg5 21.De5 Cd7 22.Dd6 Bxd2 [até aqui o jogo preto parece ter sido natural e sem erros.
23.Td1 Bg5? [23...Da8+! 24.f3 (24.Rg1 Cf6 25.Txd2 Ce4) 24...Bg5 25.Dxd7 Td8 26.Dc7 Bf6 27.e3 e5–+]
24.Cc6 [Enfim a posição branca ganha sentido.
24... Da8 [Natural, cravando, defendendo c6 e ativando a Tf8. Mas as vantagens pretas deste param por aqui, pois não há potencial de melhora em suas peças e o Bg5 só anda pelas casas pretas...Já as peças brancas tem potencial muito maior. 24...Df6 25.Dxd7 (25.h4 Bh6 26.Dxd7 Dxb2 27.Ce7+ Rh8 28.Dd8 g6) 25...Dxb2 E aqui as pretas tem um peão a mais, mas as brancas tem um certo domínio, devido a Tf8 passiva. Na prática, pretas notaram que Felipe entregou um peão, cedeu o par de bispos e depois deixou peça no ar para depois recuperar, não demonstrando medo de nada. Esta atitude incomoda bastante o adversário, pois ele tem dificuldades em avaliar as posições, pois sabe que seu rival , que aparenta ser “insano e destemido”, sempre vai gostar das suas posições resultantes onde há certa "quizumba".
25.Dxd7 Tc8 26.Td6 g6 [Quando não se tem o que fazer, a tendência é piorar aos poucos. 27.e4!± ameaçando isolar o Bg5 do jogo].
27... Tf8 28.e5! [28.f4 Bf6 29.e5 Bg7 30.Rh3 Seria possível mas pouco objetivo, além de deixar o rei em temas de perpétuo mais tarde.]
28... Bc1 29.f3! [Muito objetivo e bem calculado!! Brancas invadem território preto via sétima e casa d8].
29... Bxb2 30.Dc7! Rg7 31.Td7 g5 [desespero
Para fechar, os presentes que recebemos do mestre El Debs (o que a delegação brasileira há de ter pensando sobre nós?);



1°) Vodka com erva tropical exótica para o Vivaldinho;
2°) Absinto (70% álcool), para o Frare;
3°) Gold Label, 18 anos, para o Vivaldão.
Presentes curiosos...
Abraço!


(As meninas de Rio Preto: Marciane, Eliane (de quem roube praticamente todas as fotos) e Adriane)
(A galera de Rio preto mais Christian quinto elemento)








(Ei, Crosa!) 



(FOTO – Fritz 11 comentando a decepção por não poder jogar na equipe de Matão)









